SONHA, FIA!

É, muita gente precisa acordar, pra muita coisa na vida. Na e para a moda, inclusive. Alexandre Herchcovitch provavelmente compartilha da mesma opinião, por isso colocou suas modelos desfilando máscaras de dormir como enfeites de cabeça. E o problema da Faixa de Gaza é sério (e sênior), e requer, ao menos, a reflexão de todos. Até aí, ok, o mundo está acontecendo e nós tentamos o seu entendimento. Mas chega um momento em que um lenço palestino só é herdeiro de sua descendência no nome. Um adolescente brasileiro – que nem imagina trazer sobre o pescoço uma ‘moda’ lançada em 2007 por Nicholas Ghesquière à frente da francesa Balenciaga – também não desperta para o fato do adorno, antes da França, ter vindo do Oriente Médio. E estará ele tão errado (ou alienado) assim? Realmente temos a obrigação político-cultural de saber a origem de cada peça que carregamos sobre o corpo? Só assim seremos cidadãos conscientes e respeitáveis? Não pode a moda, justamente, também assumir um outro viés e destinar-se à imersão de beleza e fantasia na vida daqueles que respiram e pulsam a realidade diariamente?

lenco_palestino_amb

Porque se o movimento está difícil em Gaza, pode não ser muito diferente na casa deste mesmo adolescente que caminha pelo centro de São Paulo em busca de si e de um emprego para ajudar na casa, de três cômodos, em que vive com a mãe e mais cinco irmãos, um da cada pai, ausente. Será que ele já não está desperto o suficiente para sua realidade? Se ele trouxer a consciência palestina junto com seu lenço, será que este não vai enforcá-lo ao invés de enfeitá-lo? E será que esse adolescente brasileiro necessita, de fato, de mais um nó a lhe sufocar a garganta?

Romântica e sinceramente, eu acredito que não.

Sim, certamente precisamos enxergar o mundo em que habitamos, mas também precisamos sonhar – e ao sonho está implícito o sono. Precisamos de coisas belas somente pela beleza que lhes é essência, à revelia de sua linhagem. Precisamos de risadas gratuitas e não dependemos, em absoluto, de saber que o roxo é tendência para gostar dele.

Antes de me formar em moda tentei eu, por 1 ano e meio, a faculdade de Direito. Sonhava (acordada, eis o perigo) em mudar o mundo exercendo a justiça, mas me flagrei dançando a não-justiça (ou as leis não descritas) como único caminho à sobrevivência jurídica. Desisti, então, de ser a heroína do homem para, simplesmente, contribuir para o embelezamento de uma humanidade que precisa ser salva de tudo o que é feio, roupa inclusive. E quer saber? Sou muito mais feliz assim, pois ao invés de leis estudo cores e isso me garante a sanidade e o sorriso ao fim de cada dia. E não sou melhor ou pior por isso, não sou mais ou menos politizada, não sou mais ou menos útil ou inútil – sou mais eu, só isso.

Vivian Whiteman, eu amo você, amo o Alcino e amo a moda última que escrevem. E compreendo, perfeitamente, o que intencionam dizer. Quero, sobretudo, um emprego, um estágio ou um freela aí na Folha. Mas também quero que um lenço palestino possa ser, POR VEZES, somente um lenço que vá deixar minha roupa mais bonita (?) e meu dia mais enfeitado. Porque se permitir o entregar é, porque não, também um jeito de acordar.

:-)

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20 Respostas to “SONHA, FIA!”

  1. Márcia Mesquita Says:

    ah, mas o que irrita é a ignorância e a “vaziês” mesmo, não importa se é sabendo de onde vem o lenço (aliás, eu acho o máximo o lenço, apesar dos suuuper trend-setters q imitam o face hunter decretarem que já foi). acho ótimo sonhar, eu mesma vejo a moda como escapismo em algumas vezes, mas tem muita gente tapada. nao só na moda, em tudo.

    às vezes, como é o tom da folha, soa meio bronquinha né? mas adorei quando entrevistei o alcino pro bainha, rapidinho, e ele disse q ao invés de ver o filme do sex and the city 6 vezes, jornalistas de moda poderiam ver uma vez pelo menos filmes como Les 400 Coups do Truffaut. nao que nao é legal ver o sex and the city, é super divertido, mas nao é SO isso.

    mas super concordo, sem escapismo a vida fica mais chata ainda!

    gatuxa, hoje vou num show da banda que o namorado da minha amiga da pós produz (ufa, que explicação imensa heuahe), móveis coloniais de acaju. quer ir? well, anyway, se for fazer alguma coisa no fds, callll
    bjsss

  2. Márcia Mesquita Says:

    que comentário giga!

  3. Márcia Mesquita Says:

    ih gatuxa, nem vou de graça nao heuheuhauehuahe é 10 dinheiros

    móveis é legal, mas conheço pouco HAHAHAH vou pq to na fase vereadora

    cidade natal? uai, achava que vc era paulistana, é de onde?

    bjss

  4. alda Says:

    oi lindona! esse assunto já foi bem debatido e por vezes polêmico! mas concordo que a moda existe p/ embelezar e transmitir algo que cada um queira passar, mas penso tbm. que não custa ter consciência daquilo que tá vestindo e como será interpretado, pq. a moda é teatral sim, pq. a msg. sempre é passada mesmo incoscientemente, tipo sair c/ uma roupa ultra sexy e achar que isso não vai ser interpretado como tal? difícil não ser, enfim, penso que a moda é o lúdico mas o real tbm., traz msg. política, mesmo não sendo a função maior dela!
    viajei total na maionese kkk não sei se me fiz entender????
    bjka e bom findi

  5. Tati Rodrigues Says:

    Alda amiga, certamente a roupa passa não somente uma mensagem, mas toda um conteúdo não-verbal sobre quem a está carregando. Podemos, até mesmo, ‘”ler” um pouco sobre cada um conforme aquilo que está vestindo (humor, desejos, intenções…). O que quero dizer é que não precisamos, a toda hora em que formos nos vestir, decupar a repercussão política daquilo que trazemos sobre o corpo. Porque moda é também um divertir-se, um permitir-se, um fazer-se bem. E, ÀS VEZES, só isso deveria bastar.

    Beijão!

  6. fernanda Says:

    ai eu AMEI esse texto. A-MEI.

  7. Pri Caineli Says:

    Tem selo lá no blog pra você!
    bjus!

    http://www.blig.ig.com.br/princesanatorre

  8. Márcia Mesquita Says:

    amyga, respondi seu comentário por email ehahuhae
    top secret!
    bjsss

  9. fematsu Says:

    Tati, adoreeei esse seu texto!
    Durante a faculdade de moda eu me peguei muitas vezes pensando se eu não deveria fazer outra coisa até eu perceber como o terreno da moda é favorável ao uso crítico da razão! O seu post é uma prova disso!
    Fico feliz por vc ter lagardo o direito e ter vindo “se bandear” para o lado da moda! É um provilégio poder ler algo interessante, principalmente quando se trata de algo do qual concordamos, mas não sabemos expressar em palavras. Para mim, que não sou muito boa nisso, é um alívio ler um texto assim, pois é quase como se vc estivesse “psicografando” o que sinto/penso.
    Obrigada pela leitura! *rs*
    *smacks*

  10. OFICINA DE ESTILO: MODA PRA VIDA REAL » Blog Archive » quem conhece, reconhece (parte II) Says:

    [...] Na contramão (a gente adoooora!): o pensamento (gênio) da dra. Vodca sobre a comunicação não-verbal a reinvindicação do direito de se vestir só por diversão da Tati Rodrigues (gênia!) [...]

  11. Cris Hélcias Says:

    Tati! Que texto mais lindo! Você traduziu um pensamento que sempre carrego comigo: a moda pela moda, pela beleza e o prazer de usar algo belo! Beijos e parabéns por escrever de forma tão bonita.

  12. Luigi Says:

    Adorei o texto… mas concordo médio com vc… Concrodo na parte que a moda tem seu papel escapista, de sonhar, de alegrar e tals. Concordo também que fulano não precisa saber a origem do lenço para usar. Ele pode usar tanto pq acha bonito, como forma de protesto político se souber o significado. No fim das contas, ambos tem como objetivo a satisfação de uma imagem que ele quer transmitir através da roupa.

    Onde eu não concordo muiot – na verdade acho que nem é ma discórdia, é só um complemento – é que a moda quando vai além do enfeite, além de embelezar é bem mais interessante. É que com a moda virou uma coisa super popular (aquilo que a moda está na moda), acabou contribuindo ainda mais para aquele estereótipo de alienação, de que não serve para nada a não ser enfeitar. Daí que quando a gente consegue um mini protesto, uma mensagem mais profunda através da moda, fica muito mais interessante e muito mais bem explorada. Afinal, eu acho que a moda pode muito mais do que só enfeitar. Pode enfeitar/embelezar e comunicar algo importante e pertinente, não?

    Lembra da coleção passada do Alexandre? Foi meio isso… Ou então as coleções clássicas do Chalayan. E se agente parar para pensar são essas roupas que vão um pouco além da moda do momento, um pouco além do só enfeitar, que acabam entrando para a história de verdade.

    Acho que é isso… Não conhecia seu blog ainda, mas adorei! Já assinei e estou colocando no meu blogroll agora!

    Beijos!

  13. bibiana Says:

    Achei lindo também o seu texto, e entre todos que tenho lido sobre o assunto foi o que mais fez essa mudinha aqui querer comentar.
    Acho que saber e conhecer é maravilhoso. Mas nem sempre tão alcançável.
    Já sonhar é essencial.

    E sabe o que eu mais penso quando leio sobre o lenço palestino?
    Que a primeira vez que ele virou moda não foi em 2007, não. Foi sim em 2004 no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, quando muitos palestinos contaram suas histórias e inspiraram uma boa multidão a usar seu lenço em apoio.
    Meus pais eram alguns desses, e sempre achei curioso aquele lenço que sempre vi no ármario deles virar febre por aí.

    obs.: saudades de você! beijoca

  14. Camila MODAmundi Says:

    Tão bom ler seus textos… Faz pensar, questionar, desejar e sonhar!!!
    Amooooo

    beijo grande

  15. Herbie Says:

    Sempre que eu venho aqui tenho umas epifanias (umas bem mobrais, vale dizer) que me fazem sempre querer voltar aqui.

    Sempre fico pensando nessa história do que determinada peça signifca alçguma coisa pra quem tá vestindo, mesmo que seja um valor emocional, mas nunca havia realmente notado o fator de consciência que existe no histórico da própria peça (alheio a quem a veste).

    Então que toda vez que venho aqui também acontece a história fã (já te falei naquele outro comentário), que é séria. Os textos são cada vez mais lindos e cativantes. incrível! :D

    :*

  16. BIG BANG BLOG THEORY « o avesso do espelho Says:

    [...] né, quer seja pra se vestir, quer seja pra escrever, quer seja pra comer ou se apaixonar, o que, de fato, ninguém pode se [...]

  17. SONHA, FIA! « o viés da moda Says:

    [...] SONHA, FIA! Publicado Abril 3, 2009 O Avesso do Espelho 0 Comentários Tags: balenciaga, folha de são paulo, lenço palestino, nicolas guesquière, vivan whiteman Publicado originalmente em 30/01/2009, no Avesso do Espelho [...]

  18. Cada um faz o que pode « o avesso do espelho Says:

    [...] seus símbolos quando quis; chamei o coração às palavras quando bem entendi; me preferi; fiz um post-resposta lúcido e consciente a uma grande jornalista quando achei por bem e inventei curtas por trás de frames de moda quando [...]

  19. cueiros presidenciais: Barack Obama « o avesso do espelho Says:

    [...] é uma série de réplica de posts escritos por Vivian Whiteman – o outro que escrevi está aqui. É somente um desenvolver de idéias a partir de uma grande proponente delas. Porque se a sombra [...]

  20. MADAIL Says:

    É LEGAL

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