PANO PRA MANGA

Nadia Plesner, artista plástica dinamarquesa, levantou uma bandeira, ou melhor, uma camiseta, que está dando o que falar, fazendo a gente parar, respirar um pouco e pensar (real intenção das artes plásticas, afinal): ao ler ”Not on our watch” (de Don Cheadle e John Prendergast) acabou por constatar que em meio ao genocídio e outras atrocidades acontecidas em Darfur, Paris Hilton era a úncia que concentrava as reais atenções da mída. Sentindo-se horrorizada diante de tal situação, resolveu agir. Já que não pode, segundo suas próprias palavras, “ir contra eles” (o “show business”), resolveu aderir à linguagem de que se utilizam, criando, ela própria, uma imagem com “designer bags” e “ugly dogs” (cenário típico das celebridades). Diz que se é preciso carregar uma bolsa de marca e um cachorro feio para receber a atenção merecida, que estes elementos estejam, então, nas mãos daqueles aos quais a atenção deve se voltar: os carentes de comida, saúde, dignidade…

Tal reflexão materializou-se numa ilustração de um garoto nu, olhos amedrontados e suplicantes, empunhando uma bolsa (que em muuuuuito lembra uma Louis Vuitton) e um chihuahua à lá Paris Hilton, estampada em pôsteres e camisetas comercializados a 15 e 35 euros respectivamente, revertidos para a campanha Simple Living, iniciativa contra o genocídio na região sudanesa que arrecada fundos para o Divest for Darfur (campanha esta cujo nome lembra, em muito, o nome do reality show estrelado por Paris: Simple Life, no qual um patricinha presencia situações “adversas”, pelo menos para o seu mundo, como viver numa fazenda – longe dos shoppings, portanto – sem cartão de crédito).

Até aí nada muito transgressor. O problema está na bolsa escolhida para o pequeno sudanês da ilustração carregar: uma Louis Vuitton (ou pelo menos uma analogia escancarada dela). O grupo LVMH, claro, não deixou barato e exigiu que a artista acabasse com a divulgação dos produtos. Nadia não fez por menos e não só não cedeu como publicou em seu site oficial a carta recebida pelo grupo e a sua gerada em resposta. O grupo entrou, então, com medidas legais contra a artista.

OK, a situação na Àfrica, assim como em muitos outros lugares no mundo é gritante e muito além de delicada. E a Louis Vuitton vende peeeencas e é objeto de desejo de uma parcela da população mundial exatamente oposta à africana, mas a culpa de tudo isso recai somente sobre as marcas de luxo e os chihuahuas? Humn, sei não. Pra mim a engrenagem gira um pouco mais embaixo. Aqueles que detêm o poder de comprar uma Louis Vuitton não o têm por causa da marca e sim devido à sua conjuntura individual aliada à sua posição social frente à conjuntura governamental do país em que residem. Além disso, Paris Hilton e chihuahuas igualmente não são culpa do grupo LVMH e sim da imprensa especializada, que os utiliza (e a todos as celebs) para vender a ilusão de um acesso, ao mínimo óptico, desta pequena fatia da população mundial a todo o resto do bolo, que não têm Paris no nome nem Hilton no sobrenome mas se contentam em acompanhar o cotidiano ordinary daqueles que o têm.

Claro, Naida Plesner sabe muito bem disso (daí a intenção de sua campanha), mas ao fazer uma analogia visual em sua ilustração de um símbolo comercial, concentrou as críticas a este símbolo e a todas as logomarcas em geral, ficando subentendidos em seu apelo visual (a meu ver), mídia e sistema. Como Maria Prata já levantou a discussão em seu prataporter.com.br, a imprensa – o 4º poder – não deve ser esquecida (nem subentendida) e merece a parcela de culpabilidade que lhe cabe (assim como aqueles que a compram e consomem indiscriminadamente), não devendo esta recair somente sobre aqueles que têm um símbolo para ser crucificado – neste caso uma LV too expensive.

Pra pensar.

PARIS HILTON, O CHIHUAHUA TINKERBELL E A VIDA SIMPLES

A LV

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Uma resposta to “PANO PRA MANGA”

  1. Ana Paula Pedras Says:

    Oi! Primeira vez q entro no seu blog recém-inaugurado! E já gostei pq foi inaugurado no dia do meu aniversário! hahaha

    Achei muito bacana a iniciativa da Nadia Plesner, e não acho que ela quer passar a ideia de que as grifes de luxo são responsáveis pela ignorância que temos frente aos problemas do mundo. Pelo contrário, interpretei tudo da mesma forma que vc e acho que a artista tb… Para se ter atenção da mídia, uma atenção que rende capas e capas de revista, capas de portais da net, comentários exaustivos na tv, seria necessário ter em mãos artigos de luxo e ítens inúteis e fúteis? Pq? Culpa das marcas de luxo por existirem?! Não! Claro que não! Culpa nossa, que se interessa por futilidade, culpa da mídia que dá espaço exagerado pq é isso que vende! Concordo com vc nesse ponto… Deveríamos então, ao invés de só aplaudir o casal Brangelina, nos juntarmos a eles… Que de uma forma diferente da Nadia Plesner, estão usando a mídia pra chamar a atenção pros problemas mundiais…. Assunto pra se pensar….

    Bem… acho q ficou imenso meu comentário! oops… desculpa!
    Parabéns pelo seu blog e adorei suas opiniões! Vou passar aqui com certeza!
    bjus!

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