O AVESSO TRAZ COISA NOVA POR AÍ…

Assim como as Oficinas, eu também A-M-O Clarice Lispector! Nossa amizade começou em minha temporada em Paris, quando em atmosfera francesa devorei as palavras em português escritas pela mais brasileira das ucranianas – palavras estas que se sugerem e interferem na vida de Lorelai e Ulisses em “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” e que colaboram para que as nossas próprias vidas nunca mais sejam as mesmas.

A partir daí, amor instalado. E de lá pra cá Lispector me ajuda a ler o mundo em suas entrelinhas…

Vai que em 15 de julho fiz anos e ganhei de presente, claro, \”Só para Mulheres\”, novo livro com textos da musa. Aconselhando sobre moda, economia doméstica, etiqueta (comportamento feminino em geral) num tom de conversa e confidências, o livro reúne mais de 290 textos, produzidos nas décadas de 1950 e 1960 sob os pseudônimos de Teresa Quadros, Helen Palmer e como ghost-writer da atriz e modelo Ilka Soares, respectivamente, para os jornais Comício, Correio da Manhã e Diário da Noite.

Revelando uma Clarice jornalística, os textos reproduzidos nos confidenciam uma escritora também personagem de suas próprias angústias e dúvidas, respondidas em intenção coloquial e despretensiosa por alguém que, antes de tudo, sabe-se sua primeira leitora.

Este Avesso, longe de ser lispectoriano, traz também uma autora que sabe-se sua primeira leitora e que busca colocar sua verdade essencial em cada coisa que escreve. E como é espaço que se sugere quase um almanaque contemporâneo relativo àqueles das décadas de 50 e 60 cujo conteúdo remete diretamente ao “Só para mulheres”, resolvi que merecia uma nova coluna, publicada todas as sextas-feiras e entitulada:

“SEXTAS EM REVISTA – LISPECTORIANAS”

Trazendo sempre um texto-conselho da musa, este Avesso compromete-se em transportar a realidade de Lispector e das mulheres de sua época para nós, mulheres desta época e, ainda assim, atemporais.

Escancarada aqui a referência-reverência explícita aos textos de Clarice como ponto de partida para as análises colocadas em revista, não pretendo com isso violar nenhuma lei de direitos autorais nem contar o livro a prestações – intento somente trazer um pouco mais de uma escritora incrível que tão bem soube ler e traduzir a si e às mulheres de seu tempo para este universo blogueiro, contemporâneo, que fala sobre moda e comportamento feminino e que, também busca se compreender, bem como às suas mulheres.

E para esta busca de compreensão, Clarice inicia a coluna que inspirou arrebatadora, como sempre. Desta vez provando em números:

SEXTAS EM REVISTA – LISPECTORIANAS

– A VOCÊ, O SEU TEMPO –

“Talvez você se capacite de que na realidade tem mais tempo do que pensa, se fizer a conta das horas do dia, da semana, do mês, do ano…

Vamos facilitar a tarefa para você.

Um ano tem 365 dias – ou seja, 8.760 horas. Deduza oito horas por dia de sono. Deduza cinco dias de trabalho por semana, a oito horas por dia, durante quarenta e nove semanas (descontando, digamos, um mínimo de duas semanas de férias, e mais uns sete dias de feriados). Deduza duas horas diárias, empregadas em condução.

Nessa base, sobram-lhe 1.930 horas por ano. Para você fazer o que quiser.”

Pelo visto mulheres que reclamam que suas horas do dia estão curtas e que estas necessitariam se estender para 36 não são coqueluxe de nosso milênio – jornada dupla, ascensão profissional, reconhecimento de mercado e maior espaço para suas idéias e opiniões não são, pois, a verdadeira raiz desta sensação.

O que precisamos, de verdade, é baixarmos a guarda de super-heroínas e nos deliciarmos com um saboroso egoísmo que nos permite reservar parte de NOSSO PRÓPRIO TEMPO, dentro das 24 horas diárias, para nós mesmas. E SÓ PARA ISSO. Pra fazer o que bem entendermos, mesmo que este bem entender seja se acabar numa sessão de compras, ficar de pernas pro ar lendo um bom livro ou, porque não, assistindo a novelas; praticar exercícios físicos; fazer as unhas; pesquisar taxas de câmbio e investimentos na bolsa; brincar de roda com os filhos ou filhos das amigas; ir ao cinema; descobrir a própria cidade; ouvir boa música; dançar; cuidar do cabelo; olhar-se no espelho e conhecer seu próprio Avesso.

Assim, e só assim, não traremos no peito a constante sensação de que nada, nem o tempo, nos é suficiente.

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Porque a gente cresce, mas as aventuras não têm hora nem tamanho.

Como pra Alice.

E como pra Clarice!

🙂

3 Respostas to “O AVESSO TRAZ COISA NOVA POR AÍ…”

  1. Thais Martinez Says:

    Oi Tati,

    respondo seu e-mail sobre o endereço da Vivian… qq coisa é só mandar recadinho no blog!

    Ah, linkei teu blog no meu há um tempinho e esqueci de pedir permissô, rsrs

    beijokas ‘=)

  2. fernanda Says:

    então, eu sugiro que o tempo pra gente mesma seja, pelo menos de vez em quando, o tempo de se arrumar. de se enfeitar em frente ao espelho, de pensar no que vai usar pra encantar o mundo em volta, de se cuidar e se “carinhar”. pra homenagear clarice-nossa-musa. =)

  3. CLARICE EM LISPECTORIANAS, DE SEXTA, NA FOLHA DE SÃO PAULO « o avesso do espelho Says:

    […] Avesso, que também dedica um espaço, às sextas, à musa – SEXTAS EM REVISTA-LISPECTORIANAS – adorou a matéria e a referência à Lispector, pois, como dizem Alcino e Vivian sobre Clarice em […]

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