SEXTAS EM REVISTA – LISPECTORIANAS

BELEZA EM SÉRIE

“Existe uma triste tendência, agravada nos últimos anos, para estandartizar a beleza e os tipos femininos. Influenciada pelo cinema, a mocinha escolhe uma artista de bastante renome e passa a ser o seu carbono. Imita-lhe o penteado, a maquiagem, o riso, os gestos, as modas, às vezes até o tom de voz. Houve a fase das Marylin Monroe, das Lolobrigidas, das Sofia Loren. A febre agora ainda é das BB, intercaladas aqui e ali por pequenos estágios em Debra Paget, Marisa Allasio e Píer Angeli. Garotas bonitas, que poderiam ser lindas no seu tipo próprio, mascaram-se de caricaturas francesas, italianas e até suecas famosas. Belezas em série, belezas de catálogo, numeradas, como se adquiridas por encomenda postal. Despersonalizadas, essas pobres imitações jamais conseguem sucesso, pois o que fez a fama daquelas estrelas não foi o cabelo penteado dessa maneira, nem foi o sorriso dengoso de dedinho na boca, nem foi aquele olhar cheio de convites. Foi a personalidade, o talento, a graça, e estas nenhum cabeleireiro, nenhum maquiador, nenhum trejeito, estudado diante do espelho, lhes darão.

Sejam vocês mesmas! Estudem cuidadosamente o que há de positivo ou negativo na sua pessoa e tirem partido disso. A mulher inteligente tira partido até dos pontos negativos. Uma boca demasiadamente rasgada, uns olhos pequenos, um nariz não muito correto podem servir para marcar o seu tipo e torná-lo mais atraente. Desde que seja seu mesmo.

Os homens não gostam das mulheres em série. Se gostam daquelas estrelas é porque as acharam diferentes. Vocês, imitando-as, apenas serão consideradas ridículas.

Por favor, meninas, sejam vocês mesmas!”

(Clarice como Helen Palmer, 1º de abril de 1960 para o Correio da Manhã)

Rápido direto e certeiro é este texto da musa. Sem entrelinhas nem entremeios, Clarice diagnostica uma fase da juventude que se não observada pode resultar em mulheres inseguras e não-senhoras de seu domínio – o desejo de ser e ter aquilo que não se é ou não se tem.

Sabe aquela velha máxima:”blábláblá… quem tem cabelo liso quer enrolar e quem tem cabelo enrolado quer alisar”? Pois então, na verdade este dito só reflete uma não-aceitação de si próprio pautada única e exclusivamente em convenções e IMPOSIÇÕES sociais. Sim, porque é a sociedade, exaltando os milhares de benefícios de se ter um cabelo liso que vai induzí-la a se acabar em escovas progressivas, de chocolate, de porcelana, de barro cozido pelas mãos virginais das índias da polinésia e sei lá mais o quê, fazendo com que de repente você também acredite que o liso é muito melhor que o enrolado e por isso, se você própria não for uma lisa, não será bem recebida e bem-vista pelos olhos sociais.

Tá, eu sei que a moda é uma delícia e absolutamente tentadora. Eu própria vivo e sobrevivo dela, mas tudo tem sua hora e seu lugar, e, mais importante, tudo tem o seu limite. Esta mesma sociedade que lhe cobra cabelos lisos também aceita que uma criança morra de fome, no mundo, a cada três segundos ao mesmo tempo em que aceita uma só pessoa ganhar o equivalente para alimentar uma África inteira por bons anos durante este mesmo intervalo de tempo – três segundos. É este o parâmetro que desejamos para questionarmos e redefinirmos nosso verdadeiro ‘eu’?! Humn, sei não, esta barca me parece naufrágio certeiro.

Portanto queridos leitores: vivam a beleza e vivam a diversidade!!!!! Que todo mundo quer ser bonito, quer ser admirado e quer ser amado, isto é inquestionável, mas devemos desejar ser amados a admirados por quem somos realmente, e não por quem parecemos ser assim que saímos de um salão de beleza ou de um banho de shopping (ou um banho de brechó, no meu caso).

Belezas em série, belezas de catálogo, numeradas, como se adquiridas por encomenda postal. Despersonalizadas, essas pobres imitações jamais conseguem sucesso, pois o que fez a fama daquelas estrelas não foi o cabelo penteado dessa maneira, nem foi o sorriso dengoso de dedinho na boca, nem foi aquele olhar cheio de convites. Foi a personalidade, o talento, a graça, e estas nenhum cabeleireiro, nenhum maquiador, nenhum trejeito, estudado diante do espelho, lhes darão.”

Um batom, uma roupa ou uma escova podem facilmente ser comprados; já o sorriso nos lábios por um reconhecimento profissional pautado em seu talento e seu suor, ou aquele brilho no olhar de quem ao seu lado acaba de acordar, mesmo estando você descabelada e desarrumada, ah, mesmo não sendo propaganda da Mastercard devo repetir: isso não tem preço.

Descatalogue-se e faça a diferença!

And enjoy yourself!

2 Respostas to “SEXTAS EM REVISTA – LISPECTORIANAS”

  1. SEXTAS EM REVISTA - LISPECTORIANAS « o avesso do espelho Says:

    […] diálogo com as Lispectorianas da semana passada, a autênticidade é a melhor das fashionistas e nunca sai de moda. A busca por si mesma é a […]

  2. CLARICE EM LISPECTORIANAS, DE SEXTA, NA FOLHA DE SÃO PAULO « o avesso do espelho Says:

    […] de Clarice publicado pela Folha, ‘Imitação de Holywood’, o Avesso também já revelou aqui. Em tempo, porque a poesia de Lispector em tom de conselho de amiga deve, sempre, cumprir o seu […]

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