SEXTAS EM REVISTA – LISPECTORIANAS

“- A COLABORAÇÃO NO LAR –

As mulheres têm muita influência sobre a vida do marido, especialmente no setor de trabalho. Por trás de todo homem casado que trabalha, está a sombra da esposa. Esta poderá ajudá-lo a subir muito além dos outros, ou fará tanto peso para baixo que ele desistirá de lutar. Uma coisa é estimular pelo elogio e camaradagem, outra coisa é queixar-se todo dia de que ele não sobe na vida e ganha menos do que se gasta em casa. Isso pode arruinar a vida de um marido.

Que deve você fazer para animar seu marido? Em primeiro lugar, mostrar-lhe por pequeninas coisas, que você tem confiança nele, que espera dele grandes coisas e que ele é seu herói. Faça a sua parte, limpando a casa, preparando pratos saborosos e educando as crianças. Ele se sentirá feliz num ambiente sossegado e poderá repousar melhor. No dia seguinte, estará apto para enfrentar novas lutas e poderá conseguir novas vitórias”.

Clarice como Helen Palmer para o Correio da Manhã de 15 de janeiro de 1960

Este conselho, à primeira vista, pode parecer machista e, se sugerido e publicado por Clarice em 1960, totalmente descabido hoje, em 2008. Entretanto, tudo, absolutamente tudo assume uma outra posição quando analisado por outro ângulo.

O que Lispector quer dizer, na verdade, é que somos nós, mulheres, as responsáveis por empurrar o mundo, literalmente. E o maior exemplo disto está no ato de se dar à luz – a mulher, quando em trabalho de parto ‘normal’, empurra seu filho à vida, com toda sua força.

Talvez seja esta a metáfora e a sabedoria máximas da natureza… e Clarice, sábia, entende de metáforas.

Foi ao ar hoje, no ‘Vale a Pena Ver de Novo’, o último capítulo da novela ‘Cabloca’. E nele Belinha, após passar a novela toda sofrendo por um amor não-aceito por seu pai, finalmente se casa com seu mocinho e dele tem um filho. Seu mocinho, por sua vez, uma vez aceito pelo pai de sua amada, alia-se politicamente a ele e enquanto sua mulher dá a luz a seu primogênito, ele está, ao lado do sogro, discursando em comício sobre a importância do voto e da moralidade para o nascimento de indivíduos-cidadãos.

É um final de novela diferente do ‘casaram-se e viveram felizes para sempre’ e traz toda esta reflexão homem-mulher em sua seqüência:

– enquanto o homem discursa, a mulher dá à luz, parindo o mundo que os homens paridos duelam para governar;

– “O voto de um povo é a sua alma!”: ao mesmo tempo em que um indivíduo é parido, uma sociedade consciente esboça nascer;

– homens e mulheres são, sim, diferentes e sempre o serão. Elas geram e eles agem. Seu fusão só acontece quando do nascimento de um novo ser, que, em sendo prova viva da união de opostos, embala o mundo a continuar;

– você é da onde você veio: do empurrão de uma mulher.

Sem trocadilhos infames, vale a pena ver de novo:

Não, este conselho de Clarice definitivamente não é machista – É SOMENTE UM ATESTADO DA CONDIÇÃO PRIMEIRA DE SE SER MULHER.

🙂

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