de Losso para Lee, anti-catequese

Primeiro porque já é o máximo uma cátedra de banca se emocionar tanto com o trabalho de uma formanda (e não deveria ser sempre assim? ou, ao menos, ser mais assim?), segundo porque o trabalho é emoção mesmo e rende, sim, posts em mais de um blog (aqui e aqui, além desse aqui que você está lendo). Primeiro, por sua vez, porque a garota em pauta é brasileira, não celebritie e dona de uma idéia que, até agora, mostrou-se bastante consistente. Segundo porque ela não tá fazendo moda dobrando a barra da boyfriend pant – ela está, literal e poeticamente, fazendo moda.

Yoon Hee Lee apresentou, na FASM, sua coleção “Conquistando Conquistadores”. Palavras de Thais: A pergunta que a Yoon Hee Lee joga no ar é “Que tipo de mundo viveríamos se a cultura dos nativos da América se tornasse dominante, incorporando-se à cultura européia?”

Pois é, que tipo?

Bom, por aí a gente já percebe que a moda pode – E DEVE – discutir e desfilar temas socialmente relevantes, acarretando em estéticas ainda mais contundentes. Um pouquinho mais da história dessa coleção (ainda nas palavras de Losso): a estilista criou uma história fictícia, onde os jesuítas se adaptaram à vida dos nativos e incorporaram às suas vestimentas traços da indumentária indígena para simbolizar a comunhão que desejavam criar entre as duas culturas. Com o tempo, eles formaram uma comunidade com os índios e decidiram voltar para a Europa para apresentar o que haviam aprendido. Infelizmente no retorno o navio acaba afundando e termina com o sonho dos jesuítas de fundir as duas culturas.

Prestaram atenção nas questões levantadas por Yoo? Sim, os jesuítas massacraram a cultura indígena, catequizando e europeizando tudo o que viram pela frente. Mas, como sonha Lee, e se o massacre tivesse dado lugar à fusão?

yoon hee lee_AMB_1

yoon hee lee_AMB_2

Tá vendo como dá? Tá vendo como dá pra ser brasileiro sem ser caricato? Tá vendo como a moda pode ser brasileira e, ao mesmo tempo, totalmente inserida num contexto global? Yoon Hee Lee apresentou uma coleção que já é, por si só, um editorial internacional completo, falando de brasilidade sem fuxicar.

Diz que ela mandou uma pasta com seus trabalhos para o diretor de admissão da Central Saint Martins (reconhecida escola de arte e design de Londres) e ganhou (ganhou!) um curso de pós-graduação.

Lindo, mas pra pensar.

Tomara sim que Lee vá pras gringa e arrase, mas tomara que ela continue (se) questionando e costurando temas tão enraizados como o da sua monografia. E tomara que ela seja uma BRASILEIRA ESTILISTA (se não de nome, pelo menos de formação) e não uma estilista brasileira. Tomara que ela se funda e não seja massacrada. Tomara que seu sonho não afunde. Tomara que ela não seja um nome por trás de uma grande casa. Tomara que ela não seja catequizada por uma grande casa. Tomara que ela construa a sua própria.

Com estruturas brasileiramente alicerçadas, de preferência. E sem alegorias. Como ela bem mostrou que pode fazer.

yoon hee lee_AMB_3

Vai Lee, vai ser o inverso. Conquista o velho continente que nós, indígenas colonizados do novo, esperançamos.

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14 Respostas to “de Losso para Lee, anti-catequese”

  1. Thais Losso Says:

    nossa!!!que post lindo!

  2. Raquel Says:

    O trabalho dela é realmente lindo e merece reconhecimento. A única coisa que me incomodou, e muito, foi o discurso muito ingênuo. Esse papo de jesuítas bonzinhos, tolerantes que ficaram maravilhados com a cultura indígena e resolveram abrir os olhos europeus; parece coisa de conto de fadas. Esses jesuítas parecem aqueles turistas que vão à Índia, acham tudo mágico e lindo e acabam criando uma caricatura da cultura local. A colonização foi na base da porrada, muitos povos foram dizimados por conta de intolerância e do espírito dominador europeu da época. A Companhia de Jesus acabou se tornando um braço da Igreja Católica que atuava para manter a sua influência nas novas terras conquistadas. O discurso era: ou vc aceitava Deus ou vc morria. Duvido muito que naquela época os religiosos tinham alguma noção de relativismo cultural.
    Concordo com a sua visão que moda tenha que ter uma atitude mais reflexiva, mais próxima da arte ; mas se vamos brincar de pensar , vamos brincar direito. Se você quer discutir questões relevantes, o seu foco deve ser mais profundo e tocar nos pontos cruciais , nas feridas do problema. Senão parece um pseudo-intelectualismo, pra mascarar uma roupa produto, não uma expressão artística.
    Não entendo muito de moda, é um assunto que me despertou o interesse recentemente. Eu tinha uma visão carregada de clichês , achava moda uma coisa bem superficial , mas vi que não é bem assim. Vi que pode ser uma expressão artística e pessoal como qualquer outra, como a pintura, o cinema ou a música, dependendo de como é trabalhada. Sim, é algo além de tendências, mas se queremos que ela seja levada a sério não dá pra cair em discursos românticos de mocinhos e bandidos, principalmente baseados em realidades históricas.

    • tatirodrigues Says:

      Oi Raquel, tudo bem? Em primeiro lugar, brigada por comentário tão participativo. Bora dialogar que isso aqui é pra isso mesmo.

      Então, sim. Você tem razão ao dizer que nossa colonização foi na base da porrada e que a intolerância foi dizimadora, mas eu acredito que Yoo sabe disso. Por isso ela questiona o tipo de mundo resultado SE a cultura dos nativos da América se tornasse dominante, incorporando-se à cultura européia.

      Claro, a visão desenhada por Lee é sim ingênua e romântica, mas, de novo, também acredito que ela saiba disso. Por isso mata o sonho, naufragando-o. E assim vai costurando sua ironia . E definindo a beleza do seu trabalho, que por ser improvavél e onírico, emputece e enlouquece e embriaga. Ainda mais.

      De resto a moda deve refletir, mas não precisa ser séria ou relativa aos fatos. A História pode ser um ponto de partida para hipóteses desfiladas que, só por serem hipóteses, não deixam de fazer pensar (muitas vezes elas funcionam justamente como o start para a reflexão) – com o ganho de que também nos permitem sonhar.

      E quando isso acontece, a moda fica foda. De verdade. Não acha?

      Bejoca.

  3. Márcia Mesquita Says:

    na verdade, ela foi para a entrevista que a university of arts faz no Brasil para tentar a graduação da saint martins, mas o prof disse pra ela fazer a pós porque esse era o nivel dela!!!

    e oq impressiona é q ela tem descendencia (ou é mesmo) coreana, e tem o portugues até mesmo vacilante!

    eu mal conheço ela, mas fiquei TAO impressionada SÓ com os desenhos dela, q pedi o email dela pq é um contato q nao posso perder hehehehe

    bjss

  4. Márcia Mesquita Says:

    nossa, vim aqui complementar meu comentário de que ela é um SUPER talento, mas é uma fofinha, ao contrário de muito aluninho estrela da FASM. mas vi o comentário da raquel e resolvi dar pitaco.

    acho que a proposta dela não foi contar a história da colonização brasileira. Não era aula de história da indumentária ou de figurino… ela imaginou algo inverso e completamente imaginário – algo tão impossível, índios passíficos dominarem os europeus – que não há problema algum em ser romantizado. Concordo com a Tati, ela SABE q é irreal

    e esta é toda a beleza do tema

    bjs

  5. minhamaequemedisse Says:

    eu me formei em moda em julho desse ano, seu post me comoveu bastante, mesmo pq fui “impedida” de fazer um trabalho mais consciente e mais brasileiro, tanto pelos orientadores, qto pelos colegas de classe, qto pela direção de curso, para eles eu estava “viajando” demais… :O

    As propostas e execução da Yoon Hee Lee estão na boca do povo por motivos obvios. O trabalho é fantastico.
    Eu particularmente não me formei para ser designer, mas e se quisesse ser? qual seria a estrutura q o curso teria me dado?

    Espero tb que o “brasileirismo” de Yoon não morra em outro continente, mas ela tem q ir pra lá mesmo estudar, aqui ainda é tudo mto comercial, precário e tacanho…ela precisa de portas maiores para seguir seus caminhos…

    • tatirodrigues Says:

      Pois é Nic… no meu TCC também fui bastante direcionada. Em tese seria o lógico (por isso temos orientadores), mas, assim como você, também me senti bastante tolida no processo. É uma pena, pois monografias acadêmicas talvez sejam a última oportunidade para os alunos soltarem tudo o que desejam antes que o mercado de fato os castrem. Mas, pelo que ando percebendo por aí, as faculdades andam se adiantando um pouco nessa história de castração. Enfim…

      Que o “brasileirismo” de Yoon não morra em outro continente nem nossas vontades no diploma. Bejão e super valeu o coment.

  6. Silvia Says:

    Nossa… isso é pra realmente calar a boca de quem ainda acha que uma monografia de moda nao pode ser bem embasada e que raramente vai deixar alguém boquiaberto! É assim que eu me encontro agora Tati: boquiaberta!
    Como não conheço a Lee, só posso dizer que, pelo menos pelo que o seu post me retratou a ideia dela foi incrível. Também não estou lendo os outros comentários. De verdade, eu adorei…e acho mesmo que estamos falando de um editorial internacional completo.
    beijo

    • tatirodrigues Says:

      Bafo né Silvia?! E como eu estava falando pra Nic, as monografias PRECISAM SIM ser bem embasadas, afinal as universidades se propõem, justamente, a formar pensadores e executores de projetos inovadores e significantes. Se os alunos não desenvolverem isso já na faculdade, no mercado, certamente, a coisa será bem mais difícil – e, provavelmente, barrada pelo financeiro. Bejo e brigada pela visita.

  7. Ju Lopes Says:

    Moro e estudo num “outro continente” e percebo que a geografia do hype está cada vez mais alterada e o Brasil não deve, nem de longe, chorar as pitangas ao se comparar com a gringolândia. O “ir pra fora” não é mais o que era. Nada nos distancia, nada. Quer dizer, sim, a única coisa que nos faz ver que o “aqui fora” é melhor é simplesmente a nossa percepção errada de que o aqui fora é melhor. Talvez dinheiro, talvez mais estrutura, isso sim ainda pesa. Mas não tanto. Chegou a hora de desalimentar essa cadeia colonialista, porque o colonialismo já era. E a Yoon Hee Lee soube mastigar tudo isso muito bem.

    • tatirodrigues Says:

      É Ju, também já morei e estagiei no velho continente e sei que não devemos ficar chorando as pitangas brasileiras. Mas que as estruturas (de lá) pesam (ainda mais), ah, isso pesam. Agora, “desalimentar a cadeia colonialista”, falou bonito e muito bem, hehehe. Concordo plenamente. Bejão.

  8. Milena Wiek Says:

    Tati, tudo bem?

    Trabalho aqui na agência TV1 e preciso te mandar um material. Você me manda um email para este endereço para que eu o envie?

    Obrigada!

  9. Hannah Sá Says:

    Amei, (você chorou? eu também estou maravilhada)
    a proposta é marcante, e super inovadora. Diferente como a moda brasileira tem que ser (diferente no sentido de que temos tudo que inovar e acrescentar)
    inspirador e um exemplo

    que ela tenha muito sucesso

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