ESCHER

Fiquei nua diante do espelho e vi muitas.

Marcelo levantou, a cama derreteu do lado esquerdo. Como se presa aos seus pés quarenta e dois foi-se indo, escorregadia. O lençol enroscado numa avalanche submissa ao empuxo e eu em cima, fui atrás. Fui junto, derrapei.

Caí no chão pisado e era como se aninhada por 1,38 de largura mais 1,88 de comprimento, 100% algodão, brasileiro mesmo, não egípcio. Passarinho filhote desgarrado, Marcelo tinha ido.

Fiquei ali o tempo da volta súbita e arrependida passada em quarenta mais dois. Não veio, no oposto sádico a umas lágrimas. Depenada, tão recém-acordada quanto abandonada ladeira cama abaixo, ou me subsistia naquele inferior ou subia no desajeito, trinta e sete direito no chão, mãos no joelho, impulso e trinta e sete esquerdo laboradamente alinhado. Alinhei.

De cima era ir em frente, cada arranjo no seu tempo. Primeiro a cabeça, depois o resto. Ergui, o espelho em diante e eu em muitas, por todos os lados. No jogo reflexivo entre o da parede e o da porta do armário negligenciada aberta, eu não acabava de existir até o infinito, se bem que diminuindo, verdade. Muitas, várias mas sempre a mesma, eu não esgotava. Ali eu tinha de mim pra vida inteira, e pra depois dela. Todas despidas, todas com o cabelo emaranhado e umas lágrimas perdidas. Meu múltiplo em uníssono com meu único.

Eu pensava e elas correspondiam, obedientes. Decidi que deviam se desemaranhar. E eram muitas, e eram mãos e mãos e mãos pra sempre me acariciando o couro cabeludo, descendo os dedos pelos fios já não tão revoltos. E foram milhares os esboços de sorriso de canto de boca do lado esquerdo, o mesmo da cama derretida. E depois vieram as pontas, táteis, nos olhos diversos e molhados, verdes. E o sorriso se contaminou. E se dobrou. Não, quadruplicou. Não, disseminou. E eu era todas. E eu era todos os risos.

E eu era todas as bundas, e eu era todas as sardas, todas as estrias e todas as celulites. E eu era todas as pernas compridas, todas os seios pequenos e provedores, todas as orelhas furadas e todas as peles machucadas. E eu era todos os desejos e todas as mulheres deles. E eu era todas as mulheres, ali derrubadas e ali suspensas, ali maiores, em pé, 37.

E quando toda, e quando todas elas, e quando esquecida do que era ido ele se voltou, a nós, todas. E nós aceitamos porque naturalmente muitas e naturalmente fêmeas. E nos permitimos porque naturalmente corpos. Antes infinitivos e agora espelhados. Na acordada multiplicação.

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5 Respostas to “ESCHER”

  1. Márcia Mesquita Says:

    assim, meio clarice

  2. Márcia Mesquita Says:

    hahahahaha é porque achei o estilo, o fluxo de pensamento virando história, parecido.

    a gente pode montar uma banda só de clarices lispectoras, o que acha? todo mundo fino de batom vermelho escuro e delineador HAHAHAHA

    é, to enolouquecendo mesmo!
    bjs

  3. leticia Says:

    Quando você vai começar a escrever o seu livro?

    luvluvluvluvluvluv – endless.

  4. Silvia Says:

    eu ia perguntar exatamente o que a Letícia disse.
    caso você já tenha um livro, onde eu encontro?

    tô precisando muito alinhar meus dois trinta e sete chatos no chão.
    gosto de ir aqui te ler!

  5. alberto Says:

    quero ver voce responde à pergunta da leticia

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