time of my life

Acho o natal um saco. Um puta saco que não aquele de um tal do pólo norte que o consumo simbolizou como a data. Coisa mais sem sentido! Tá, tem o lance do cristianismo e tal e pra quem curte deveria valer alguma coisa. Mas até pra esses o que vale, mesmo, são os recessos coletivos de fim-de-ano, as confraternizações da firma, os duzentos e cinquenta amigos-secretos, os presentes na meia, embaixo da árvore, no saco do tal lá do norte, coisa mais sem sentido!

É mais ou menos como quem sabe reproduziu de um outro um tantinho mais sabido:

53. a consciência do desejo e o desejo da consciência são o mesmo projeto. seu contrário é a sociedade do espetáculo, na qual a mercadoria contempla a si mesma no mundo que ela criou.

61. aparecendo no espetáculo como modelo de identificação, ele renunciou a toda qualidade autônoma para identificar-se com a lei geral de obediência ao desenrolar das coisas.

(ivo reproduzindo trechos de “a sociedade do espetáculo”, de guy debord, lá no seu blog etílico)

O natal virou espetáculo e todo mundo sabe disso, mas segue fingindo que não pra meter a mão no saco do pólo. Ou então porque é mais fácil. Ou então porque é a lei geral da obediência do desenrolar das coisas. Coisa mais sem sentido!

Tava aqui digerindo o que não consegui produzir para incentivar o consumo dessa época porque ela mesma resolveu tirar férias coletivas e impedir a continuidade do meu trabalho integrado e obediente. Aí parei pra sentir bem lá no estômago que não gosto dessa onda toda e toda essa história fez eu me sentir tão amarga quanto a minha acidez que parei pra sentir. Aí parei pra assistir televisão e me dopar. Mas aí vieram as propagandas de panetone e, bem, bem. Tv a cabo costuma resolver, zip, zip zip. Nem assim. No próximo já perto do último veio TCM e Dirty Dancing, e aí resolvi parar. Já que é pra fugir, que seja acompanhada por Time of my Life, bem adolescente e videoclipicamente, coisa não tão sem sentido.

E aí que todo o sentido na amargura e no estômago fez todo o sentido, assim mesmo nessa overdose palavrial e tudo! Gente!

Assim ó: como Jennifer Grey em Baby, costumava eu passar parte das férias de verão numa colônia de férias (!), período que incluía o natal. Não, lá nunca teve professor de dança gato como o Patrick, mas tinha papai noel. E tinha natal. E tinha ceia. E eu gostava. E não é porque acreditava no velho.

Por quê, então, Deus meu?

Porque na tal da ceia e coisa e tal a gente se arrumava toda bonita, a gente comia gostoso, a gente dançava até o sol nascer, a gente ficava entre amigos e a gente era feliz! Assim, sem mais nem menos e sem presentes porque esses já tinham cumprido sua cota de representatividade durante a tarde visitada por algum hóspede que se sujeitava a noel.

E aí foi né! Eu cresci e vi que não preciso de uma data marcada em calendário pra ter uma noite feliz. Eu me arrumo bonita todos dos dias, eu procuro comer gostoso sempre, eu amo dançar e amo o sol nascer e eu estou sempre entre amigos, graças a Deus e a Oxalá. E eu cresci e vi que não preciso do natal. Não desse daí que todo mundo vende desde o começo de dezembro e salda as sobras depois do dia 25. Eu cresci e vi que é bom saber que santa claus não rola, até porque santo que só comparece uma vez por ano e pra oferecer coisas materiais é tão esquisito como o dia dedicado a ele. E eu cresci e acreditei nos meus próprios santos, que ainda bem, moram aqui bem pertinho e não lá nos gélidos. E eu cresci e vi que crescer é também escrever tudo isso aí em cima. E eu cresci e vi que continuo me emocionando com as mesmas danças sujas da adolescência. E eu cresci e vi que se rebelar contra os pais é amar a si mesmo e não deixar de amá-los (principalmente se um Swayze vier na bagagem). E eu cresci pra deixar de frequentar a tal da colônia de férias. E eu cresci, enfim e dentre outras coisas, pra construir o meu próprio natal, todos os dias. Ou tentar, ao menos.

E isso, ah, isso sim e o ano inteiro, faz e como faz, todo o sentido.

Feliz Natal de cada um a cada um! Tipo assim:

“…qual é teu nome? Qadós. Qa o quê? Qadós. Qadós de quê? Isso já é bem difícil. Digo: sempre fui só Qadós. Profissão. Não tenho não senhor, só procuro e penso. Procura e pensa o quê? Procuro uma maneira sábia de me pensar.” (Hilda, Hilst).

Né?

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3 Respostas to “time of my life”

  1. ivo Says:

    bolg etílico hahahahahahahaha
    :******

  2. Silvia Says:

    Ai Tati… eu vi que você não atualizada o twitter há um tempão e daí achei que o blog tb tava sem novidade. E quando resolvo vir espiar aqui, às vésperas da véspera do dia tal, encontro este texto incrível. Também ando resistindo ao colo do Noel. Também me revolto com a hipocrisia da época do peru. Confesso que também só me importo com os feriados, pra conseguir descansar um pouquinho (só um pouquinho porque sempre trabalho de natal ou no ano novo)….
    Mas já que a data tá corrompida, que mal tem só pensar nos dias de folga né?
    Gostei mesmo do seu texto. E adoro a Baby! É muito minha infância… talvez mais que o Natal….

  3. Canto da Boca Says:

    É. Dá um alívio danado saber que não sou a única que tem ojeriza ao que se tornou o natal, no que nós, sociedade do absurdo, transformamos o natal. Tá bem dito. E tenho dito! E o que diria o “Nego Dito”? Bacana aqui.

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